chamada perdida

Olhava o telefone sem parar. Não sabia se esperava de fato uma ligação ou se estava apenas aflita, mas sentia uma enorme necessidade de assistir os números do visor mostrando o tempo passar. Queria sentir uma dor profunda, mas sua aflição não passava de esperança disfarçada de ansiedade. Por que insisto em ter tanta esperança? pensava a moça, mas logo o pensamento se perdia na lembrança daqueles olhos verdes. Tudo se perdia na imensidão gélida daqueles olhos verdes. Por um minuto, lembrou-se dos olhos de ressaca de capitu, os olhos de observar o mar do anjo marinheiro. O que você mentir eu acredito, balbuciou enquanto olhava-se no espelho, boba com a lembrança dos olhos verdes-de-um-verde-movediço-entre-o-denso-do-vidro-e-o-suave-da-hortelã-recém-plantada. Embriagada pela lembrança, a moça sentia-se estranhamente feliz. Jogou o telefone sobre a cama de lençóis azuis, com um quase-sorriso brotando em seus lábios pequenos e bateu a porta, entrou no banheiro e ligou o chuveiro. Enquanto a água aquecia, a moça distraía-se com uma melodia cansada.

O banheiro estava tomado por uma névoa branca quando a moça entrou embaixo do chuveiro. Não gostava de nada morno, nem mesmo banho. A água quente passeava por seus cabelos escuros e seus ombros pequenos pontuados por algumas sardas. A verdade é que, ao contrário das outras, sentia-se confortável com seus defeitos. Tudo o que sofrera no passado havia ensinado-a a se amar, aceitar cada um de seus defeitos. Tudo o que lhe afligia no alto da sabedoria de seus quinze anos agora parecia poeira; não bobagem, só passado. Memórias espinhosas agora eram frondosas roseiras e chegava a recordá-las delas com uma ponta de nostalgia, mesmo as ruins. É engraçado como tudo se encaixa, pensou a moça, dirigindo-se a nenhum interlocutor em particular. Desligou o chuveiro e enrolou-se na toalha, com o corpo avermelhado da água escaldante. Abriu a porta do banheiro e saiu, contaminando a casa com a névoa perfumada de óleo de sândalo.

Entrou no quarto, jogou a toalha sobre a cama e pegou o telefone. Havia uma chamada perdida.

retirada daqui.

Sim, nesse texto existem duas referências ao Caio Fernando Abreu, meu escritor preferido. Não consegui me controlar.

hope you like it.

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