silêncio

Percebeu que havia enlouquecido quando escreveu o nome dele no espelho embaçado, seis letras. Já havia se apaixonado outras vezes, já havia quebrado a cara outras vezes, mas dessa vez era diferente. Todo aquele silêncio. Denovo o silêncio. Precisava acabar com aquele silêncio. Preferia palavras, ofensas. Qualquer coisa seria melhor do que aquele silêncio escuro e turbulento. Silêncio que enchia de ruídos aquelas madrugadas insones. E mesmo frente a tanto silêncio, não conseguia deixar de querê-lo. Amar era equivocado. Qualquer sentimento era equivocado. Preferia desejá-lo, com uma fúria que beirava a raiva. Raiva por todo aquele silêncio que a enlouquecia, intercalado com palavras doces e sorrisos falsos. Se não o desejasse, teria nojo dele e de toda sua cordialidade.  Egocêntrico, resmungou com um travesseiro enterrado sobre a cabeça, encharcado por seus cabelos molhados.

Por um momento, quis escrever uma carta para um destinatário qualquer, quis fugir, tatuar um desenho qualquer apenas para sentir a agulha furando-lhe a pele clara, não importava, desde que acabasse com o  torpor que aquele silêncio trazia. Queria recuperar sua sanidade. Precisava reaver a sanidade que aquele silêncio de olhos castanhos havia levado embora. Insanidade que de uma certa forma, havia transformado tudo em silêncio nos últimos (muitos) dias.

Estendeu a mão e procurou o relógio, que marcava quinze pras cinco. Se estivesse dormindo, acordaria em duas horas, pensou ela, debochando da própria insônia. Tateou o controle remoto sobre a cama, ligou a televisão e  ficou observando as personagens de um filme qualquer. Quando percebeu, lá fora amanhecia e as nuvens coloriam-se de rosa. Nunca havia percebido que podia ver o amanhecer de sua janela. Num misto de excitação e insônia, levantou-se, escancarou as persianas empoeiradas de seu quarto e então abriu as janelas. O vento que entrava pelas janelas arrepiava a moça, mas lhe dava um novo fôlego.

Parou em frente ao espelho, cabelos ainda úmidos do banho e decidiu reagir a aquele silêncio. Sorriu com malícia e calçou os sapatos mais altos que tinha. Ainda olhando-se no espelho, pensou nele e em seus olhos castanhos, dessa vez com mais raiva do que paixão, mesmo que as duas ainda se confundissem. Secou os cabelos e com calma, maquiou os enormes olhos azuis. Abriu os armários e passeou entre os cabides, encontrar seu vestido preferido e, reconfortada, vestí-lo. Olhou no relógio e percebeu que era hora de sair, afinal ainda era quarta feira e ela tinha de trabalhar.

Antes de sair de casa, olhou-se fixamente no espelho da sala e sorriu. Então,  vestiu o longo casaco acinzentado e, apressada, bateu a porta.

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